
O caminho para o inferno está pavimentado com declarações prematuras sobre o fim político de Donald Trump. Mas os democratas podem ser perdoados por interpretar suas grandes vitórias desta semana como um vislumbre do fim de Trump. Não apenas democratas centristas e socialistas atropelaram os rivais republicanos —na Virgínia, em Nova Jersey, na cidade de Nova York e em uma série de disputas em outros lugares—, suas vitórias foram amplificadas por alto comparecimento às urnas. Os eleitores tendem a participar menos das chamadas eleições fora de ano. Mas, na terça-feira (4), hispânicos e jovens de todas as raças apareceram em massa. Então, nada de Trump ter forjado uma coalizão multirracial da classe trabalhadora. Parece que eles estavam apenas alugados. De qualquer forma, os oponentes de Trump sentem um possível alvorecer. No ano desde que ele foi reeleito, os democratas sofriam da versão institucional da depressão. Liderados por servidores envelhecidos, que pareciam atordoados pela audácia das manobras de Trump, a taxa de aprovação do partido continuava caindo. Esses números ainda estavam baixos na noite de terça-feira, quando seus candidatos venceram com folga. Isso explica parte do choque dessas vitórias. Como um partido cansado, com uma marca em declínio, poderia ficar com o prêmio? A resposta é que os candidatos viraram as armas de Trump contra ele. A vitória contra Kamala Harris em 2024 foi principalmente sobre a economia. Contra evidências prevalecentes, Joe Biden, depois Kamala, insistiram que os americanos raramente tiveram uma situação tão boa. Eles culparam a falta de gratidão do público pela má comunicação. Se pudéssemos expressar mais claramente como os eleitores estão em melhor situação, eles votariam em nós, os democratas diziam a si mesmos. Trump venceu porque prometeu consertar o que estava irritando os eleitores —especialmente a inflação. Além disso, ele prometeu extinguir a era democrata de pregação sobre pronomes e outras causas morais. “Kamala é para eles/elas [‘they/them’, pronomes para o plural, em inglês, usados também como pronomes neutros]”, dizia sua devastadora peça publicitária eleitoral. “O presidente Trump é para você.” Os vencedores desta semana digeriram essas lições. Cada um deles se concentrou implacavelmente nos preços. Até Zohran Mamdani, o prefeito eleito de Nova York, falou principalmente sobre acessibilidade em uma cidade que se tornou muito cara. Embora seus remédios sejam muito mais radicais, incluindo um congelamento de aluguéis em toda a cidade, a disciplina da mensagem de Mamdani foi impressionante. Quando perguntado na segunda-feira sobre a afirmação de Trump de que ele era mais bonito que o candidato de 34 anos, Mamdani disse: “Meu foco é na crise do custo de vida, cara.” De maneiras diferentes, Abigail Spanberger e Mikie Sherrill, as novas governadoras da Virgínia e Nova Jersey, fizeram o mesmo. O oponente republicano de Spanberger tentou atribuir a questão trans a ela, embora ela nunca a tenha levantado. Os republicanos ficaram lutando uma guerra cultural fantasma. Trump, enquanto isso, começava a soar como Biden. “Não temos inflação”, disse ele em uma entrevista ao programa 60 Minutes. “As compras no mercado estão mais baratas. Estamos prontos para realmente arrebentar.” Trump culpou os resultados de terça-feira pelo fato de seu nome não estar na cédula. As pesquisas de boca de urna contaram uma história diferente. Mais de 60% dos americanos culpam Trump pelo que veem como uma economia ruim. Essa autópsia pós-eleitoral coloca Trump em um verdadeiro dilema. Seu movimento lógico seria reconhecer a raiva americana com o custo de vida e fazer algo a respeito. Ele tem um ano inteiro para agir antes que os eleitores entreguem o que poderia ser um veredicto muito mais consequente nas eleições de meio de mandato de 2026. Uma tomada democrata do Capitólio transformaria Trump em um pato manco, ou pior. O histórico passado sugere que ele buscará a vitória a qualquer custo, incluindo tentar reverter o resultado. No entanto, ele não tem esperança de conter a inflação se persistir com sua guerra tarifária global. Tarifas são a principal ferramenta tanto da política econômica quanto da política externa de Trump. Ele se autodenomina “O Homem das Tarifas”. Nesse aspecto, a China pode ter vindo inadvertidamente em seu socorro. Na semana anterior, na Coreia do Sul, Trump estabeleceu uma trégua de um ano com Xi Jinping na guerra comercial EUA-China. Um Trump exuberante canalizou todo seu exagero característico para classificar o acordo como nota “doze de dez”. Em contraste, o sério Xi mal conseguia olhar para Trump. Ao empunhar uma bazuca maior —a ameaça de uma proibição de exportação das terras raras indispensáveis da China— Xi fez Trump se curvar. Trump agora tem um forte incentivo para declarar vitórias semelhantes em outras guerras comerciais. Nesse sentido, a noite de terça-feira também foi boa para Brasil, Índia, Canadá e outros alvos da ira de Trump. Por uma coincidência temporal, a Suprema Corte americana realizou na quarta-feira (5) audiências sobre a legalidade da guerra tarifária. Foi coincidência que os juízes conservadores soassem incomumente ousados ao questionar as medidas comerciais do presidente? Eles também podem possivelmente ajudar Trump derrubando as tarifas. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo De qualquer forma, o primeiro ato do segundo mandato de Trump acabou. Seus aliados leais que administram ministérios poderosos continuarão a realizar os caprichos do presidente. Pode esperar que sua procuradora-geral, seu diretor do FBI, o ICE (agência imigratória) e o Pentágono sejam mobilizados em torno das eleições do próximo ano. O revés desta semana provavelmente só intensificará seus instintos de homem forte. Apenas os ingênuos apostariam em uma eleição de meio de mandato sem interferências. Quaisquer que sejam os contornos da resposta de Trump, sua vontade de poder é feroz. Mas pela primeira vez em algum tempo, os democratas acham que podem ver uma saída da escuridão. Grandes margens de vitória são de longe a melhor proteção contra artimanhas.




