
Quando um artigo científico contém erros, ele deve ser retratado pela revista responsável por sua publicação e a propagação de seus achados, interrompida. Na prática, no entanto, não é sempre o que acontece: em uma amostra de 375 trabalhos “despublicados”, 285 (76% do total) continuaram sendo citados em novas pesquisas ou em redes sociais. A constatação foi feita pela pesquisadora Karen Isabelle dos Santos d’Amorim durante seu doutorado em ciência da informação na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Sua análise foi vencedora da edição mais recente do Prêmio Capes de Tese na área de comunicação, informação e museologia, cuja cerimônia ocorreu no fim do ano passado. D’Amorim também se debruçou sobre as causas das retratações: em 45,2% dos artigos analisados, houve má conduta ou fraude; em 20,5%, erros editoriais; e em 16,5%, erros de autoria. Os pedidos de retratação, na maioria das vezes, não são feitos pelos próprios autores. Quase um terço deles (32,8%) parte de terceiros, ou seja, um pesquisador da área escreve para o periódico no qual o estudo saiu indicando algum problema como plágio, dados incorretos ou manipulação de imagens. Cerca de 20% das retratações são feitas pela própria revista por motivos como duplicata acidental ou publicação de uma versão que ainda não era a final revisada por pares. Segundo a especialista, existe uma relação direta e estrutural entre a pressão por produtividade e os casos de má conduta na ciência. Na tese, D’Amorim argumenta que o ecossistema científico é regido pela lógica classificada como “publicar ou perecer”. Nesse cenário, o artigo científico se torna uma mercadoria de alto valor agregado, uma moeda de troca essencial para a sobrevivência acadêmica que garante recursos, financiamento e bolsas. “É muito importante que nós falemos sobre integridade científica, porque ela não é algo tácito, ela é aprendida e deve ser ensinada desde os primeiros anos da graduação”, afirma D’Amorim. “Então olhar para as falhas da ciência nos permite melhorar a própria prática científica.” Para ela, a manutenção de citações e menções a trabalhos já retratados podem comprometer a confiança das pessoas sobre a ciência e o processo científico. No estudo, a pesquisadora analisou uma série histórica de artigos produzidos por autores de 14 países latinoamericanos, entre os quais Brasil, México, Argentina, Colômbia e Chile. A amostra reuniu 375 artigos que saíram entre 2002 e 2022 em 289 periódicos —entre os quais Plos One, Scientific Reports e Nature— e acabaram retratados. Os trabalhos são das áreas da saúde, ciências biológicas, exatas, humanas, entre outras. Os trabalhos inválidos da área de ciências da saúde e biológicas são os com mais citações e repercussão nas redes sociais, de acordo com D’Amorim. Para o estudo, ela usou a ferramenta Altmetric Bookmarklet, que contabiliza menções dos artigos em sites de notícias e plataformas como o X (antigo Twitter), YouTube, Facebook, Reddit e Wikipedia. “O cenário da pandemia pode ter contribuído para esse resultado, mas esse campo [da saúde] tem um apelo por uma aplicação direta na sociedade”, avalia a pesquisadora. Na tese, D’Amorim cita um estudo sobre obesidade e diabetes publicado em 2007 que foi retratado em 2016. O trabalho foi citado 221 vezes mesmo após a “despublicação” e 80% das citações consideravam os resultados válidos. Além de contaminar a literatura acadêmica, esses artigos podem alimentar a desinformação, que se espalha muito mais rápido do que a verdade. Um caso de destaque dos últimos anos é o de um artigo de 1998 publicado no periódico The Lancet que associava a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) ao desenvolvimento de autismo em crianças. O trabalho levou mais de uma década para ser retratado e, até hoje, é mencionado por negacionistas como se tivesse informações verdadeiras e seu autor tornou-se uma referência entre negacionistas. Para D’Amorim, existe uso de má-fé de artigos retratados entre grupos negacionistas, mas também problemas de sinalização das retratações nos sites das revistas científicas e repositórios que poderiam receber mais atenção. A solução do problema passa por algumas ações, de acordo com a pesquisadora. “As retratações devem ser escritas de duas formas: uma para a comunidade científica e outra para o público geral”, sugere ela.




