
O PSD, obra-prima do Maquiavel tupiniquim, não esteve diretamente na gestão Bolsonaro, apesar de até ter um ministro filiado, Fabio Faria, que era muito mais uma escolha pessoal do então presidente. Mas a bancada do partido votou sempre majoritariamente junto com o governo à época.Pragmatismo. Kassab é um “operador do possível”.Maquiavel parte do princípio de que política não é um concurso de virtudes morais, mas um jogo de alianças, sobrevivência e resultados. Ou seja, Kassab na veia.O ex-vice-prefeito de um tucano (Serra), ex-ministro de uma petista (Dilma), ex-ministro do maior opositor dela (Temer), secretário de um conservador (Tarcísio), almoça com Lula.”Decifra-me ou devoro-te.”Kassab não é simples de entender. Um enigma até para analistas políticos mais experientes.Continua após a publicidadeNão serei eu o Édipo.”Que criatura tem quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?”.O homem.Gilberto, para os mais íntimos, não tem apenas pernas para chutar debaixo da mesa, sem ninguém ver. Ele tem tentáculos que estão por toda a parte.Como alguém pode, neste momento de polarização histórica, ter três ministros na Esplanada e, ao mesmo tempo, ser secretário de articulação política de um governador de oposição que até ontem era potencialmente o maior adversário do presidente?Porque nosso personagem central aqui tem a Virtú de Maquiavel. Sua leitura de cenário, especialmente antecipando movimentos, é impecável. Ele tem, digamos assim, uma paciência estratégica, sempre atento ao momento certo para tudo. E uma habilidade de negociação com amigos, adversários, opositores e até com inimigos.Continua após a publicidadeA eles, Kassab também dedica algum tempo.Arthur Lira, o secretário de Tarcísio, que mudou de pasta e perdeu poder, era o mais próximo do governador. Bateu de frente com Kassab. Resultado: deixou as articulações políticas e foi cuidar do Procon. Este é só um exemplo. Aprendam a lição.Aos Bolsonaro, aqueles que não lhe dedicavam simpatia, Kassab guardou a resposta na geladeira. Como sangue.Acompanhem.Com Caiado, Eduardo Leite e, principalmente, com Ratinho Jr, o PSD embaralha o jogo das eleições. Pode até virar as pesquisas, o que seria hoje pouco provável, dada a consolidação da candidatura Flávio. Mas com certeza, o partido vai ocupar um espaço importante do eleitorado. Os “nem-nem”. Nem Bolsonaro, nem PT. Um trabalho com a rejeição de ambos.Este eleitor que odeia um mais do que ama o outro candidato, é o eleitor que decide o pleito.Continua após a publicidadeCom a estratégia de Kassab, o candidato do PSD valoriza seu passe no primeiro turno. E o oferece por uma fortuna eleitoral no segundo turno.Vale ministério, presidência de estatal, cargos comissionados e até indicação de ministro do STF, uma das pérolas do próximo governo.E se, nas reviravoltas da política brasileira, Lula for maquiavélico, e sinalizar com a vice-presidência para o PSD? E se for para Kassab em pessoa?O apoio do PSD a quem quer que seja, não será oferecido por pouco. Não vai ser de graça.No cenário de hoje, que sempre pode mudar, o apoio de Kassab vale a própria eleição.Na pesquisa do Instituto Paraná, por exemplo, a soma dos votos de Flavio e dos candidatos da direita, dá vitória fácil no segundo turno. Mesmo que não sejam cem por cento deles.Continua após a publicidadeNas conversas reservadas, o candidato da família Bolsonaro não gostou do movimento kassabiano desta semana. Mas Tarcísio, em entrevista logo depois de visitar Jair, ontem na Papudinha, já amenizou: “Estaremos juntos no segundo turno”.Em São Paulo, Kassab quer estar com Tarcísio no primeiro turno. Ou melhor, no aquecimento. Ele quer ser vice-governador. O plano 16, sobre o qual já falamos aqui: quatro anos como secretário, quatro como vice-governador e, quem sabe, oito como governador.Afinal, como Maquiavel, Kassab não acredita na Fortuna, no acaso. Ele se adapta.E sabe também que “governar é somar forças”, como escreveu o pensador florentino. E neutralizar inimigos. A arte de fazer política com menos paixão e mais cálculo.Não é um vale-tudo. A política apenas funciona com outras leis.Elas não são melhores, nem piores. Nada de julgamentos moralistas. Ela é apenas diferente.Continua após a publicidadeAté o estilo de vida de Kassab traduz isso.Ser recebido em seu apartamento, atrás de um famoso shopping center em São Paulo, para uma conversa, é comum aos aliados. Pode ser sábado, domingo, feriado. Vai ter café. Pode ser servido no living enorme, na sala contígua, ou até na cozinha. Lá eles ouvem análises, sugestões, e são ouvidos com atenção. Kassab decide, mas sabe ouvir.Maquiavélico não é ser cruel, manipulador, amoral. Maquiavélico é ser temido, não odiado.Não, Kassab não é Maquiavel, que no seu tempo livre, tinha mulher e seis filhos. Kassab é casado com a política. E fiel a ela.OpiniãoTexto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.




