

Entidades ligadas à causa autista criticam vídeo publicado em rede social; diretora diz que foi “desabafo pessoal” fora do ambiente escolar e Secretaria da Educação reforça compromisso com educação inclusiva.
Por Wesley Silas
GURUPI (TO) — Um vídeo publicado nas redes sociais pela diretora Carla Martins de Barros, da Escola Municipal Odair Lúcio, gerou reação de pais, mães e entidades ligadas à causa autista em Gurupi. As declarações foram interpretadas como ofensivas ao tratar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) como “transtorno da moda” e ao usar a expressão “alecrim dourado” ao se referir a crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.
Na gravação, feita em ambiente doméstico e divulgada no Instagram, a diretora afirma que “limite todo ser humano precisa ter” e diz que “não sai de casa para apanhar”, ao comentar, segundo ela, situações de agressividade envolvendo crianças com transtorno. O conteúdo foi compartilhado e passou a circular em grupos de mensagens e perfis locais, provocando críticas públicas.
Entidades divulgam notas de repúdio
Após a repercussão, o Instituto Via Autismo e o grupo Café & Terapia divulgaram notas de repúdio. As organizações apontam que a linguagem utilizada no vídeo reforça estigmas e desinformação sobre o TEA, além de contribuir para a desumanização de crianças atípicas.
O Instituto Via Autismo informou que pediu ao secretário municipal de Educação, Samuel Rodrigues Martins, a apuração dos fatos, com comunicação aos órgãos competentes e adoção de medidas administrativas, diante da gravidade do conteúdo associado a uma gestora escolar.
Já o Café & Terapia condenou especialmente os trechos em que crianças atípicas são descritas como “sem educação” e o TEA é tratado como “moda”, destacando que a inclusão depende de acolhimento, formação continuada e práticas pedagógicas baseadas em evidências — não de generalizações.
O vídeo citado na reportagem está disponível no YouTube Shorts:
O que diz a diretora
Procurada pelo Portal Atitude, Carla Martins de Barros afirmou que as críticas foram direcionadas a ela “sem o devido conhecimento da realidade enfrentada diariamente” e sustentou que a fala não descreveu um episódio ocorrido dentro da unidade escolar.
Segundo a diretora, a gravação foi um “desabafo individual, em contexto pessoal”, e o caso mencionado teria acontecido em um estabelecimento comercial, fora do ambiente da escola. Ela também declarou que o termo usado no vídeo para descrever uma reação (“devolvi”) se referia a uma situação externa e não relacionada ao espaço escolar.
O posicionamento da Secretaria Municipal de Educação
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação de Gurupi declarou manter compromisso com a inclusão, o acolhimento e a garantia de direitos das crianças atípicas, citando a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) como referência para as políticas públicas.
A gestão municipal não comentou diretamente as declarações atribuídas à diretora, sob o argumento de que o episódio, conforme relatado, não teria ocorrido dentro da escola. A nota reforça que a Prefeitura “preza pelo diálogo aberto e transparente com as famílias e a comunidade escolar” e afirma que seguirá trabalhando para assegurar uma educação “justa, equitativa e de qualidade para todos”.
O caso expõe um problema que vai além de um vídeo: a fragilidade da cultura de inclusão quando faltam formação, protocolos e responsabilidade institucional. A escola é um espaço de proteção de direitos, e a fala de uma autoridade escolar — mesmo fora do ambiente de trabalho — tem impacto público, porque educação inclusiva depende de linguagem respeitosa, conhecimento técnico e postura compatível com a função.
A discussão sobre comportamentos desafiadores em sala é legítima e precisa ser enfrentada com seriedade, mas o caminho não passa por rótulos nem ironias. Passa por planejamento pedagógico, apoio multiprofissional, diálogo com famílias e cumprimento da legislação. Quando o debate escorrega para a desinformação, quem perde primeiro são as crianças — e, junto com elas, toda a comunidade escolar.
Notas:


NOTA OFICIAL
Prefeitura Municipal de Gurupi
Secretaria Municipal de Educação
A Secretaria Municipal de Educação de Gurupi reafirma seu compromisso com a inclusão, o acolhimento e a garantia de direitos das crianças atípicas, em conformidade com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI).
A rede municipal de ensino conta com 24 salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE), todas com professores especialistas, além de profissionais de apoio que acompanham cerca de 400 estudantes com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). A Secretaria também mantém equipe multidisciplinar com coordenação, supervisão, assistentes sociais e psicólogas, que atuam no suporte às escolas, no acompanhamento do PAEE e do PEI e no atendimento às famílias.
Em 2025, foi implantado o projeto Mundo do Theo, fortalecendo a inclusão na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, com foco no desenvolvimento socioemocional, na formação de educadores e no envolvimento familiar.
A Prefeitura de Gurupi preza sempre pelo diálogo aberto e transparente com as famílias e a comunidade escolar, sendo defensora e parceira da causa autista. Seguiremos trabalhando com responsabilidade, sensibilidade e compromisso para garantir uma educação justa, equitativa e de qualidade para todos.
Secretaria Municipal de Educação
Prefeitura Municipal de Gurupi
Nota da diretora Carla Martins de Barros, da Escola Municipal Odair Lúcio,
A direção vem a público esclarecer e manifestar repúdio às críticas direcionadas à mesma sem o devido conhecimento da realidade enfrentada diariamente.
Temos vivenciado um aumento significativo na demanda por atendimentos especializados, especialmente no que se refere ao suporte às famílias.
Trata-se de uma realidade concreta, que exige responsabilidade, diálogo e, sobretudo, parceria entre os setores envolvidos.
É fundamental que qualquer manifestação pública seja precedida da atenção aos fatos, evitando interpretações equivocadas ou a maximização de situações que poderiam ser resolvidas por meio da cooperação.
Em relação às manifestações que circularam recentemente, venho a público esclarecer que se tratou de um desabafo individual, feito em contexto pessoal, e não de um relato de fato ocorrido nas dependências da Unidade Escolar.
É importante destacar que o episódio mencionado não aconteceu dentro da instituição de ensino. O ocorrido se deu em um estabelecimento comercial da cidade, em ambiente totalmente alheio à escola.
O termo “devolvi”, utilizado na manifestação, refere-se à reação diante de uma agressão sofrida nesse contexto externo, não estando relacionado a qualquer situação ocorrida no espaço escolar.
Ressalto ainda que, no momento do ocorrido, a própria mãe do jovem afirmou que o filho “tinha que bater”, justificando a atitude em razão do que ela mesma nomeou como um “problema”. Tal declaração foi feita publicamente no local dos fatos.
Reafirmo que a escola não pode e não deve caminhar sozinha. As famílias necessitam de apoio, e o fortalecimento das parcerias com clínicas, profissionais da saúde da rede particular e comunidade é essencial para garantir um atendimento mais amplo e eficaz aos estudantes.
As portas permanecem abertas para todos que desejam conhecer a realidade, contribuir de forma construtiva e somar esforços em favor da educação e do bem-estar das nossas crianças.
Compromisso se demonstra com atitude.
Carla Martins de Barros



