
António Guterres, secretário-geral da ONU, enterrou no mês passado a possibilidade de o mundo conter o aquecimento do planeta até 1,5°C. Apesar de ser algo já esperado, isso não significa que o 1,5°C está perdido para sempre ou que é o fim do Acordo de Paris. O 1,5°C ainda deve ser o farol climático. O 1,5°C de que tanto se ouviu falar nos últimos anos é fruto do Acordo de Paris. Nele foi acordado que, com reduções de emissões de gases-estufa, os países perseguiriam um limite no aumento da temperatura global de até 1,5°C ou bem menos do que 2°C. Para isso se tornar realidade, foi apontada, desde o início, a necessidade de cortes rápidos e profundos nas emissões de gases-estufa. Mas, lembrando o discurso clássico, em 2021, de Greta Thunberg —”economia verde, blá-blá-blá; net zero [emissões zeradas de carbono], blá-blá-blá”— dá para se ter uma ideia de como andaram as coisas pós-Acordo de Paris. COP30 Uma newsletter com o que você precisa saber sobre a conferência da ONU em Belém Apesar de não estar no discurso de Greta, a meta de 1,5°C já estava quase condenada naquele momento. Era comum, por exemplo, ouvir de especialistas que esse objetivo não seria cumprido. Na COP26, em Glasgow, na Escócia, um dos motes foi o “Mantenha o 1,5°C vivo”. Alok Sharma, presidente daquela conferência, disse que o acordo firmado no encontro conseguiu manter vivo o 1,5°C, com uma ressalva: “Seu pulso é fraco e ele só sobreviverá se cumprirmos nossas promessas e transformarmos compromissos em ação rápida”, disse. Não sobreviveu. Afinal, nos últimos 30 anos, as emissões de gases-estufa aumentaram mais de 40%. Fechando mais o foco, a foto continua a mesma: desde o Acordo de Paris, as emissões basicamente só cresceram, inclusive batendo recorde em 2024, o ano mais quente já registrado —ou um dos mais frescos do resto das nossas vidas. Ultrapassar a meta de 1,5°C não é trágico somente para as pequenas ilhas que defendiam a ideia inicialmente. Um aumento de temperatura média global superior a essa escala joga o planeta em décadas de eventos extremos mais frequentes e destrutivos —algo que já experimentamos em primeira mão. Ainda não vai ser o fim —para a espécie humana, ao menos—, mas as consequências serão, sim, desastrosas. Mas o que pode ser feito em relação a isso? A mesma fala de Guterres que enterrou publicamente o 1,5°C também trouxe cobranças e as soluções possíveis. A ideia é que, mesmo com a inevitável superação do 1,5°C, essa não precisa ser a realidade definitiva. Fazendo agora os cortes urgentes e necessários em emissões (algo ainda distante) e investindo em formas de captura de carbono —como reflorestamento, apesar de só ele não ser suficiente—, nas décadas mais próximas ao fim deste século, o planeta pode voltar novamente a um patamar abaixo do 1,5°C. Para isso, porém, é necessária a aplicação de uma expressão que frequentemente se escuta no dialeto da crise do clima: ambição climática. Neste momento, mesmo as metas climáticas mais avançadas não condizem com a crise instalada, como apontou o pesquisador Johan Rockström, uma das mais respeitadas vozes da ciência planetária. Mesmo que sejam cumpridas todas as metas climáticas firmadas no Acordo de Paris —e atualizadas recentemente, já à luz da realidade que tem se desenhado—, o planeta hoje caminha para um aquecimento que pode superar os 2,5°C. Em grande medida, as rotas e mecanismos para conter a crise do clima estão dadas, como eliminar dependência de combustíveis fósseis e parar investimentos nessa área, investir e expandir energias renováveis. Por isso, muito se cobra em períodos de COP a chamada implementação de tudo que é assinado durante as conferências. Pelo mesmo motivo também se fala em ter como cobrar as promessas feitas —Lula tem sido um dos líderes a falar com frequência sobre isso. Resta agora ver como o mundo e a ambição climática se comportam frente a essa nova realidade que se desenhará acima de 1,5°C. Os blá-blá-blás citados por Greta se tornam cada vez mais letais.




