
Os médicos que eventualmente leem este texto sabem que as bulas apontam um amplíssimo espectro de efeitos colaterais. Isso tem um nome: “livrar-se de futuros processos”. Conversei com uma penca. Não houve um só que tenha relatado a alucinação como um efeito indesejado de uma droga ou de outra ministradas a seus pacientes. Estão entre os remédios considerados “seguros” desde que, obviamente, ministrados com a supervisão de um profissional.REALISMO MÁGICOA literatura brasileira, à diferença da de boa parte dos países latino-americanos, não é pródiga no realismo mágico. Os autores se contam nos dedos de uma das mãos. O que a ficção não nos dá, convenham, oferece-nos a vida, A emergência da Família Bolsonaro na política, fagocitando a direita e tragando para o buraco da extrema direita o pensamento conservador, é uma dessas, vamos à palavra, alucinações que tomaram o país. Não há nisso nada de místico: uma das sociedades mais desiguais e violentas do mundo encontrou nesses biltres o seu canal de expressão.Lembrem-se da trajetória de Bolsonaro desde os tempos em que, ainda no Exército, fez o croqui de um atentado terrorista para explodir a adutora do Guandu e conjecturou explodir bombas em instalações militares, passando por seu espantoso governo, com a gestão que fez da pandemia, chegando à tramoia golpista. A tornozeleira danificada, com a singela desculpa que deu à agente da PF para danificá-la — “curiosidade” — e a história da alucinação compõem o retrato da extrema direita brasileira e, é forçoso que se diga, de parte considerável do que mal chamam por aí de “elites”.UM ALUCINADO DEFINIRÁ O CANDIDATO?Com todas as vênias, ou sem nenhuma, é espantoso que se tente contestar aqui e ali a decisão de Alexandre de Moraes. Já escrevi a respeito. Ou se trata de militância ideológica ou de solipsismo jurídico que se alimenta da ignorância. Excetuo de um e de outro, por óbvio, os profissionais que fazem a defesa técnica do ex-presidente. O papel dos defensores é, afinal…, defender! E é bom que assim seja. Enquanto puderem exercitar livremente o seu trabalho, pouco importando quem seja o acusado ou condenado, teremos a certeza de viver numa democracia — à diferença do que propagam os bolsonaristas e Bolsonaros aqui e alhures.Vivo a indagar se o ex-presidente estaria pronto para uma campanha eleitoral caso fosse anistiado ou se experimenta seus dias finais, como alardeia Carlos, um dos seus filhos, e propagandeiam alguns luminares do reacionarismo que vão visitá-lo. Vale o quê? É certo que a justificativa da “alucinação” tem de estar, também politicamente, atrelada a duas drogas porque não se pode caracterizá-lo como insano clínico e, ao mesmo tempo, dar-lhe a prerrogativa de escolher o nome que vai representar a extrema direita na disputa.FASCISMO NÃO É LOUCURA”Mas Bolsonaro é louco?”, perguntou-me alguém dia desses. E eu, obviamente, respondi que não. A exemplo do que afirmei numa live no UOL neste domingo, convém não confundir um fascistoide com um insano clínico. É de algum modo confortável considerar que o fascismo é uma patologia médica. Não é. A um democrata, cabe considerá-lo, isto sim, uma doença política.




