

Entidade pede processo administrativo e medidas de proteção a estudantes neurodivergentes; Legislativo diz que acompanhará comissão instaurada pela Prefeitura. “Os comentários dessa diretora foram só a ponta de um iceberg. Mais do que nunca, nós estamos unidos. Desde o dia que saíram esses vídeos dela, mais de 50 famílias foram adicionadas no nosso instituto. Famílias que agora veem que não estão mais sozinhas, e elas não estão”, disse o representante do Instituto Via Autismo, Eduardo Santos Andrade,
Por Wesley Silas
Gurupi (TO) — Representantes do Instituto Via Autismo estiveram na Câmara Municipal de Gurupi, na manhã desta quarta-feira (04), para apresentar um Pedido de Providências em nome de crianças e adolescentes neurodivergentes. A entidade solicita que o Legislativo oficie o Poder Executivo Municipal para a abertura de Processo Administrativo/Disciplinar contra Carla Martins, diretora da Escola Municipal Odair Lúcio, após a circulação de vídeos que, segundo o Instituto, trazem ataques dirigidos a alunos neurodivergentes matriculados na unidade.
Câmara afirma que Prefeitura instaurou comissão e promete acompanhar apuração
Durante a sessão, o presidente da Câmara, vereador Ivanilson Marinho, informou que a Prefeitura já instaurou uma comissão para apurar os fatos. O Pedido de Providências apresentado pelo Instituto será encaminhado ao Executivo para adoção das providências cabíveis.

Ainda na sessão, Ivanilson afirmou que a Câmara deve acompanhar os trabalhos da comissão, a pedido do Instituto Via Autismo. Vereadores presentes também manifestaram apoio às famílias e à pauta de proteção dos estudantes neurodivergentes.
Instituto aponta possível violação de dignidade e pede preservação de provas
O Instituto Via Autismo, representado por Eduardo Santos Andrade, sustenta que os vídeos atribuídos à diretora indicam conduta inadequada e desrespeitosa, com potencial de expor estudantes a constrangimento, humilhação e violação da dignidade de pessoas em desenvolvimento.
Eduardo afirma que um termo usado de forma pejorativa contra crianças autistas foi ressignificado pelo movimento como símbolo de proteção e valorização. Em seguida, ele sustenta que é inaceitável, em 2026, que uma pessoa em posição de liderança, com “tantas leis em vigor”, desmereça famílias e gere medo coletivo.
“Usando o termo, o termo como ‘Alecrim Dourado’ de forma pejorativa para as nossas crianças. E nós pegamos esse termo ‘Alecrim Dourado’ e trouxemos ele para nós. Transformamos o que era para ser pejorativo em um símbolo de proteção, porque eles são dourados para nós, eles são preciosos”.
Ele aponta que o município teria mais de 300 famílias com autistas no ensino municipal e critica a ideia, atribuída à diretora, de “revidar” agressão de uma criança em crise. Para ele, esse discurso funcionaria como autorização indireta para que profissionais e até alunos “típicos” reajam com violência, aumentando o risco de situações de dois ou três contra um durante crises.
Outro ponto forte do relato é a falta de preparação das escolas para lidar com crises: ele descreve famílias que deixam a criança cedo e são chamadas pouco depois para buscá-la, além de mencionar crianças afastadas sem acesso adequado ao PEI (Plano Educacional Individualizado). Defende que, se houver afastamento, a rede precisa garantir um PEI bem feito, com estudo de caso por aluno, para que a família tenha condições mínimas de manter o acompanhamento educacional em casa.

Eduardo também diz que os vídeos e comentários seriam “a ponta de um iceberg” e relata fortalecimento do Instituto, com a entrada de mais de 50 famílias após a repercussão. Minimiza a frase “transtorno da moda” como “o menor dos erros”, dizendo que o problema maior é a insegurança de deixar crianças em uma escola onde uma crise sensorial (aplausos, balões, personagem fantasiado) pode gerar reação da criança e, em seguida, retaliação por adultos. Ele encerra afirmando que o Instituto seguirá à frente e que aquilo seria o início de cobranças.
A fala do representante do Instituto está disponível em vídeo (YouTube):
O que diz o Pedido de Providências
No documento apresentado ao Legislativo, o Instituto Via Autismo solicita:
- Ofício ao Poder Executivo, por meio da Secretaria Municipal de Educação, para instauração imediata de Processo Administrativo/Disciplinar, com apuração dos fatos narrados;
- Preservação das provas, especialmente os vídeos mencionados, para instrução do procedimento;
- Medidas de proteção e acolhimento aos alunos neurodivergentes da unidade escolar, com ações para impedir repetição de condutas semelhantes;
- Afastamento da diretora da função durante a apuração, para evitar interferência no processo e eventual constrangimento a testemunhas;
- Encaminhamento do pedido ao Ministério Público do Tocantins e ao Conselho Tutelar de Gurupi, para ciência e providências.
O caso expõe um ponto sensível da educação pública: a inclusão escolar depende de prática institucional, não apenas de discursos. Quando surgem indícios de condutas que possam violar a dignidade de estudantes neurodivergentes, a resposta do poder público precisa ser objetiva, transparente e responsável, com apuração rigorosa, proteção aos alunos e respeito ao devido processo.
A sociedade também tem direito a acompanhar, com clareza, quais medidas serão tomadas, quais prazos serão cumpridos e como a rede municipal garantirá um ambiente escolar seguro e acolhedor para todos.



