
Balanço das férias: não teve balanço. Nem gira-gira. Foi um recesso desanimado. Ainda mais quando lembro dos meus, quando eu tinha a mesma a idade da minha filha. Detesto saudosismos do tipo “no meu tempo era melhor”, mas, nesse caso, não tem jeito: as férias, no meu tempo, eram melhores. Todos os dias eu me encontrava com meus vizinhos na rua, por onde perambulávamos livres, jogando bola e brincando de esconde-esconde.Já não se fazem ruas seguras como antigamente, é verdade. Ainda assim, as crianças de hoje poderiam estar brincando nas quadras, nos quintais dos avós ou mesmo no apartamento. Não é o que vejo. Ao andar por um condomínio, durante um almoço que reuniu famílias com crianças durante as férias, me surpreendi ao observar a gangorra vazia, o campinho às moscas. Lá estavam os pequenos e os adolescentes, amontoados em um banco, os rostos nos smartphones. Outro dia, sugeri que minha filha convidasse uma amiga para vir em casa. Ela me olhou desinteressada por trás da tela. E, mesmo quando estava sem a tela (sua hora de uso é reduzida), não conseguimos achar facilmente alguém que largasse os games e as redes sociais para brincar. É uma concorrência desleal. O aparelho e seus aplicativos foram feitos para absorver o usuário o maior tempo possível (nosso tempo de uso serve de moeda para anunciantes) com notificações e subterfúgios inspirados até em máquinas de cassino. Em “A Geração Ansiosa”, Jonathan Haidt faz uma metáfora brilhante para explicar como o smartphone, com seus atrativos instantâneos, vai minando o tempo que seria dedicado às brincadeiras. “Smartphones são como os cucos, que deixam seus ovos nos ninhos de outros pássaros. Os ovos de cuco eclodem antes dos outros, e o filhote do cuco imediatamente tira os outros ovos do ninho, com a intenção de receber toda a comida trazida pela mãe.” O smartphone “rouba a comida”. Ou seja: absorve o tempo. E, ao absorver, não só oferece conteúdos muitas vezes inapropriados e viciantes, como priva as crianças de interações saudáveis, aquelas que acontecem presencialmente, de forma síncrona, olho no olho, como pede o desenvolvimento neurológico e psíquico, especialmente nessa fase. E se o smartphone ainda trouxesse alguma satisfação! Os números de depressão e ansiedade entre crianças e adolescentes nunca foram tão altos quanto hoje. Não à toa a Austrália proibiu o uso de redes até os 16 anos e a França deve banir até os 15. Em uma de suas colunas, João Pereira Coutinho questiona esse tipo de lei, sugerindo que os pais é que deveriam ter autoridade para fazer restrições. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Talvez isso seja possível para pessoas como eu, que passo parte do dia em casa, escrevendo, mas não para a maioria dos pais e, especialmente, para a maioria das mães, que muitas vezes cuidam sozinhas de seus filhos (são 11 milhões de mães solo no Brasil) e ainda trabalham o dia inteiro fora, em alguns casos em jornada dupla, tendo seus filhos cuidados por vizinhos e até por outras crianças. Seria o caso de não dar o aparelho até certa idade? Acho ótimo, mas como fazer isso quando até escolas se apoiam no celular para a comunicação entre alunos? Daí a importância de leis e de um pacto coletivo. Balanços e gangorras agradecem. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.




