

Por Marcelo Lelis *
O debate ambiental brasileiro costuma concentrar-se no desmatamento como principal causa de degradação dos ecossistemas e das emissões de gases de efeito estufa. No Tocantins, porém, os dados mais recentes revelam uma realidade distinta e exigem uma abordagem igualmente distinta por parte das políticas públicas.
Em 2025, o estado registrou aproximadamente 113,8 mil hectares de área desmatada, o equivalente a 0,41% do território. No mesmo período, as queimadas ilegais atingiram cerca de 1,58 milhão de hectares – 5,69% do estado. Isso significa que o fogo devastou uma área quase 14 vezes maior do que aquela afetada pelo desmatamento.
Os números consolidados pelo Centro de Inteligência Geográfica em Gestão do Meio Ambiente (CIGMA) evidenciam que, hoje, a principal forma de degradação ambiental no Tocantins não é a retirada da vegetação por corte raso, mas sua destruição recorrente por incêndios. Trata-se de um processo menos visível a curto prazo, porém profundamente danoso no médio e longo prazo, pois empobrece o solo, reduz a biodiversidade, compromete recursos hídricos e libera grandes quantidades de carbono na atmosfera.
O impacto do fogo não se limita às áreas naturais. Ele atinge diretamente a produção agropecuária, destrói pastagens, lavouras, cercas e infraestrutura, ameaça comunidades rurais e afeta as cidades com fumaça e problemas respiratórios. Rodovias, redes elétricas e até serviços essenciais podem ser comprometidos durante a temporada de incêndios. Em outras palavras, trata-se de um problema ambiental, econômico e social ao mesmo tempo.
No Cerrado, bioma predominante no Tocantins, o uso controlado do fogo faz parte de práticas tradicionais e pode ser uma ferramenta legítima de manejo quando realizado de forma técnica e autorizada. O que causa devastação é o fogo ilegal, descontrolado e recorrente, muitas vezes associado a condições climáticas extremas, acúmulo de material combustível e ausência de prevenção adequada.
Diferentemente de outros temas ambientais, o combate aos incêndios florestais não divide a sociedade. Produtores rurais, comunidades tradicionais, setor público e população urbana compartilham o mesmo interesse: evitar perdas humanas, econômicas e ambientais. O fogo não distingue propriedade pública ou privada, área produtiva ou protegida. Quando foge ao controle, ele ameaça a todos.
Por essa razão, a política ambiental do Tocantins vem se orientando cada vez mais para enfrentar aquilo que, de fato, gera maior impacto no território. Isso significa ampliar ações de prevenção, monitoramento, resposta rápida e conscientização, além de fortalecer brigadas, tecnologias de detecção e cooperação entre diferentes instituições e setores da sociedade.
Mais do que combater incêndios já instalados, o desafio está em evitar que eles ocorram ou que se tornem grandes catástrofes ambientais. Isso exige planejamento, inteligência territorial e participação social, especialmente em um cenário de mudanças climáticas que tende a tornar os períodos de seca mais intensos e prolongados.
Reconhecer o fogo como principal vetor de degradação ambiental não diminui a importância de outras agendas de proteção ambiental, mas permite direcionar esforços para onde o problema é mais grave e urgente. Trata-se de uma abordagem pragmática, baseada em evidências e orientada pela responsabilidade de proteger vidas, produção e patrimônio natural.
Os dados mostram que, no Tocantins, a maior ameaça ambiental atual não é a motosserra, mas a chama. Enfrentá-la de forma eficiente é uma tarefa coletiva e estratégica para garantir segurança, desenvolvimento sustentável e qualidade de vida para as próximas gerações.
* MARCELLO DE LIMA LELIS
Secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Tocantins




