
Assim que o rangido da porta ecoa no pavilhão, centenas de homens se aglomeram na ponta de suas camas de metal para tentar ver a saída do corredor que separa as celas. Após meses com a mesma dieta, todos apresentam um porte físico parecido. Os cabelos raspados e a vestimenta branca tornam quase impossível a tarefa de diferenciá-los. É dia de visita no presídio —não de seus familiares ou advogados, proibidos de entrar, mas de jornalistas e influenciadores que participam de um tour guiado pelo governo de Nayib Bukele no Centro de Confinamento do Terrorismo, o Cecot. No fim do ano passado, a Folha passou duas horas no complexo penitenciário que virou uma espécie de cartão postal de El Salvador. Ao atravessarem a porta dessa prisão, os internos não veem mais o sol. Alimentam-se com as mãos e não recebem travesseiros ou lençóis. Permanecem em celas com dezenas de homens por 23 horas e 30 minutos do dia. Vão ao banheiro na frente uns dos outros e tomam banho em um tanque. Não há pena perpétua na lei salvadorenha, mas condenações que podem passar os mil anos, amparadas por um estado de exceção em vigor desde 2022, fazem com que os detentos não tenham nenhuma previsão de saída. Quem entra não sai mais, é o que se ouve a todo momento lá dentro —a única exceção foi uma leva de 252 venezuelanos deportados dos Estados Unidos que foram enviados ao Cecot e, mais tarde, devolvidos a Caracas, bem antes de o ditador Nicolás Maduro ser capturado por Washington nos primeiros dias do ano. Para os apoiadores de Bukele, o presídio é um monumento à guerra contra as gangues que outrora colocavam o país centro-americano entre os mais violentos do mundo; para os críticos, um símbolo da vertiginosa derrocada democrática que a nação sofre nas mãos do presidente, no poder desde 2019 e estrela da ultradireita na região. Sua joia da coroa, o Cecot, foi inaugurada em janeiro de 2023 como manda a cartilha de Bukele, um ex-publicitário de 44 anos que se aproximou do poder fazendo campanhas políticas. O vídeo de apresentação da unidade, feito com drones, planos abertos e movimentos de recuo da câmera, confere às imagens a atmosfera de um thriller policial, não de um material de governo. A visita começa às 7h45 na Casa Presidencial, construção de estilo art nouveau no centro histórico da capital, San Salvador, a pouco mais de uma hora da prisão. É do palácio que parte o grupo com jornalistas e youtubers de França, Japão, EUA, México e Colômbia —a Folha é o único veículo brasileiro presente. No caminho, as vans com os visitantes param em dois postos de controle vigiados por soldados. Em algum ponto entre eles, o sinal do celular cai. De acordo com as autoridades, uma área de 1,4 milhão de metros quadrados no entorno da prisão é vigiada pelo governo, um trabalho que seria realizado por 600 membros das Forças Armadas. O Cecot está fincado em um morro da zona rural de Tecoluca, cidade com cerca de 26 mil habitantes. O povoado mais próximo fica a 1,6 km de distância. Circundam o presídio árvores esparsas e campos vazios. A menos de 10 km, o vulcão inativo Chichontepec, o segundo mais alto do país, é o único elemento a ofuscar a construção na paisagem. “Cecot – Centro de Confinamento do Terrorismo”, lê-se no muro da entrada, um paredão cinza de cerca de 9 metros de altura. Duas das 19 torres que compõem o prédio estão nas duas pontas da fachada, cada uma com dois soldados portando armas de cano longo. Segundo autoridades do complexo, essas estruturas externas contam com três soldados cada uma; as internas, um —número menor do que o divulgado no vídeo de inauguração do presídio, quando se falou que sete militares trabalhariam em cada unidade. De acordo com o governo, a prisão é rodeada por duas cercas de malha eletrificadas e dois conjuntos de muros de concreto com 60 cm de espessura e arame farpado. O piso de cascalho torna audíveis os passos daqueles que circulam no perímetro. Câmera em mãos, um dos youtubers bate na porta do complexo para filmar a recepção. A visita vai começar. O guia será Belarmino García, um homem de pouco mais de 1,70 m vestindo camisa branca, calça preta e um boné do Cecot com o emblema #GuerraContraPandillas (guerra contra gangues) bordado na aba. “Sou o diretor do Centro de Confinamento do Terrorismo. Para mim, é um prazer recebê-los”, diz. “Esta é uma prisão de segurança máxima, por isso a importância do estrito cumprimento dos protocolos. Não posso abrir exceções.” Primeiro, todos deixam equipamentos e acessórios não essenciais na administração —incluindo objetos como brincos e moedas. Em seguida, depositam os itens com os quais entrarão em uma bandeja que passará em um aparelho de raio-x, como os de aeroportos. Por último, passam em um scanner corporal. Os equipamentos são revisados por agentes que, mesmo por trás das balaclavas, parecem apáticos. A agente que confere o material da reportagem não vê problema na entrada de uma chave, e o funcionário responsável pelo scanner parece não notar um punhado de grampos de cabelo no bolso da calça. Além dos 600 militares que atuam dentro e nos arredores do Cecot, segundo o governo, há 250 policiais civis na prisão. Eles fazem turnos de seis horas em um regime de cinco dias de trabalho e cinco de descanso, nos quais voltam para suas casas. Por isso, a cadeia é equipada com refeitórios, dormitórios e academia. Após a revista, uma das primeiras paradas é uma sala com centenas de armas de cano longo, pistolas e munições reais e de borracha nunca usadas em três anos, de acordo com García. “O que temos aqui são detentos extremamente perigosos”, diz ele ao explicar a quantidade de armamento. “Eles não são criminosos comuns, são psicopatas.” Em cima de uma mesa preta do cômodo, há quatro tipos de algemas cuidadosamente alinhadas. “Você tem as chaves?”, pergunta o youtuber colombiano Juan Díaz. García assente. O influenciador prova uma algema dupla, de pés e mãos, que une os dois pares de argola com uma corrente. “Se abro as pernas, abaixo as mãos. Se subo as mãos, fecho as pernas. Estou bloqueado”, afirma Díaz, fazendo demonstrações para a câmera. Em seguida, parece fazer uma brincadeira ao pedir para ser libertado, e o diretor da prisão reage com uma risada. A visita ao módulo 3 (são oito, no total), em que ficam os presos, é a última parte do tour naquele 15 de dezembro. “Os detentos aqui dentro não têm nada além de suas roupas”, diz García para o grupo, em frente à unidade. “Vocês já ouviram dizer que quando esses prisioneiros entram no Cecot nunca mais saem. E isso é literal, vocês verão com seus próprios olhos.” A entrada dos visitantes na área das celas causa um burburinho que preenche todo o pavilhão, construído com estruturas metálicas que lembram as de um ginásio e iluminado com uma luz difusa que entra pelos vãos. “Buenos días”, respondem, em uníssono, ao cumprimento do diretor. Muitos dos presos estão de cócoras, na ponta das camas de metal; outros, sentados. Vestidos com bermuda e camiseta, os internos encaram sóbrios o grupo. Para eles, é um dia incomum, já que o presídio parece ter sido feito para anular o tempo e o espaço, um não lugar onde quase nada acontece. A impressão é que todas as atividades à disposição no presídio estão acontecendo no momento em que o grupo adentra o pavilhão —algo que parece um atendimento médico no meio do corredor, entrega de medicamentos pelas grades, sessão religiosa e exercícios físicos ao fundo, audiências nas salas de julgamento. Os detentos recebem três refeições por dia dentro das celas. Segundo García, o cardápio costuma incluir feijão, um creme à base de leite típico da região parecido com o requeijão brasileiro, uma mistura local de arroz com feijão chamada “casamiento”, e café ou atol, bebida quente à base de milho. Garfo e faca são proibidos, o que obriga os internos a comerem com as mãos (“se tiverem talheres, podem transformá-los numa arma improvisada”, diz o diretor). Almofadas e lençóis também estão vetados (“todo tipo de objeto já foi usado para esconder itens ilícitos ou, então, representam risco de incêndio”). “Eles dormem nessas lâminas de ferro. É um regime de detenção especial”, afirma García. “A iluminação é sete dias por semana e 24 horas por dia. Aqui nunca se apaga a luz.” Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo As celas são equipadas com 20 beliches de metal de quatro andares cada um. Isso significa que a prisão foi planejada para 80 homens dividirem dois vasos sanitários à vista de todos e dois tanques de água para banho. Surpreendentemente, considerando o número de detentos que fazem suas necessidades em um espaço exíguo —eram 3.000 no módulo 3, segundo García— não havia mau cheiro no momento da visita. Além de serem vigiados pelas grades, os presos são observados de cima por uma malha vazada de metal que faz as vezes de teto da cela, sobre a qual soldados montam guarda com armas de cano longo. O grupo segue o tour, acompanhando García, sob os olhares fixos das centenas de presos, e chega a uma espécie de sala de espera improvisada no meio do corredor, onde os internos aguardam, em cadeiras de plástico, o que parece ser uma consulta médica. Os que já estão sendo atendidos sobem em balanças ou respondem a perguntas de funcionários vestidos com jalecos, que digitam as informações em um notebook. “Avancemos, por favor”, diz García aos visitantes, conduzindo-os às três salas de audiência do módulo, na metade do corredor. Todas estavam ocupadas em supostas sessões virtuais. “Do lado da tela estão o juiz e seus advogados, e aqui temos um técnico de informática, um agente de segurança e um delegado judicial para verificar a identidade dos indivíduos”, afirma. “Isto é real, é assim que funciona. Mais uma prova de que o devido processo legal está sendo respeitado.” Os visitantes caminham em direção ao fim do corredor, onde 40 internos fazem as duas únicas atividades permitidas no Cecot —o “resgate de valores por meio da leitura bíblica”, nas palavras de García, e um treino de calistenia, feito com o peso do corpo. Ambas as atividades são realizadas em um espaço coberto, em frente às grades, o que significa que não há banho de sol em nenhum momento. “Vamos nos rodear de boas ou más amizades? Isso depende de nós”, diz o coordenador da sessão religiosa a 20 internos sentados no chão que, em teoria, nunca mais devem sair daquela prisão. À frente deles, os outros 20 presos se alongam no chão sob a orientação de um professor de educação física. “Todas as pessoas que nos rodeiam têm qualidades e defeitos”, continua o funcionário, atrás deles. Considerados os grupos de 40, os funcionários precisariam de 37 horas e 30 minutos para que todos os 3.000 presos do módulo fizessem a meia hora de atividade no dia. O calor no módulo faz a camiseta começar a ficar úmida, mas García afirma que a estrutura é suficiente para as temperaturas de Tecoluca, que variam no ano de 18°C a 33°C. “É muito importante enfatizar isso, porque se fala sobre violações de direitos humanos e condições inadequadas. Acredito que, pela primeira vez na história, exista uma prisão que atende aos padrões de direitos humanos, que possui ventilação cruzada”, afirma o diretor, fazendo referência à estrutura no alto do módulo, pela qual o ar circula pelas grades. No caminho de volta para a saída do pavilhão, guardas da prisão tiram das celas dois presos e os posicionam em frente ao grupo de visitantes. “Tirem a camisa”, diz García. “Nessas estruturas criminosas, todos têm tatuagens pelo corpo. As tatuagens fazem alusão à estrutura à qual pertencem.” Segue-se, então, uma explicação de 20 minutos sobre os desenhos. “Vocês podem ver três rostos aqui, com vendas nos olhos e bocas e ouvidos cobertos. O que isso significa? É uma mensagem letal dessas organizações criminosas para a nossa sociedade, para nos intimidar. E é a linguagem de ‘ver, ouvir e calar'”, afirma. “Vire”, ordena ao preso. “No contexto das gangues, sempre encontramos rostos demoníacos. Por quê? Porque esses indivíduos sempre confiaram suas ações a espíritos satânicos. Sempre que havia batidas policiais nas ruas ou em áreas específicas, altares satânicos eram encontrados, pois eles cultuavam o mal.” Na metade do corredor, estão localizadas as já visitadas salas de serviços médicos e de audiências, de um lado, e as solitárias, de outro. Essas celas são equipadas apenas com uma cama de cimento, um vaso sanitário e uma pia —não caberia mais nada, já que cada lado do espaço não tem mais de quatro metros. “Não há luz, não há ventilação natural”, diz o diretor, que fecha a porta para fazer uma demonstração. “Não se vê absolutamente nada”, diz à própria câmera, de dentro da solitária, um dos youtubers. García não responde qual foi o máximo de tempo que um detento permaneceu na solitária, mas as regras permitem que os internos fiquem no castigo por até 30 dias. Apesar de ter sido projetada para isolar o detento, diversos dos venezuelanos presos no ano passado relataram ter sido levados para esse espaço em grupos de até 10 pessoas. A Ilha, como são chamadas essas celas, virou uma espécie de local de tortura onde ocorriam os abusos mais graves, segundo os relatos às ONGs Human Rights Watch e Cristosal. A libertação deles, em julho do ano passado, forneceu pela primeira vez uma versão diferente do cotidiano no presídio daquela exibida em vídeos promocionais e visitas ensaiadas. Até agora, eles foram os únicos a saírem da prisão desde as primeiras transferências. Um relatório divulgado em novembro pelas ONGs afirma que os venezuelanos foram submetidos a tortura sistemática por autoridades carcerárias, incluindo abuso sexual, sessões de espancamento e tiros de balas de borracha. O texto é baseado em cerca de 200 depoimentos, além de documentos judiciais e fotografias de ferimentos analisadas por especialistas forenses. As atuais prisões de segurança máxima, como o governo Bukele classifica o Cecot, surgiram nos EUA durante a década de 1980. Chamados de Supermax, os presídios americanos são conhecidos pela austeridade no regime de isolamento de internos de alta periculosidade, que chegam a ficar em celas individuais por anos. No Cecot, a suposta capacidade de 40 mil presos é motivo de orgulho para o governo, que transformou o número em uma espécie de slogan. Essa quantidade de internos tornaria o presídio o maior do continente e, possivelmente, do mundo. Os números fornecidos, no entanto, são conflitantes. Segundo o diretor García, cada um dos oito módulos conta com 32 celas, e cada cela teria espaço para 80 a 100 presos. Ou seja, com 100 presos em cada cela, o que faria 20 deles dormirem no chão, o Cecot teria capacidade para 25.600 internos. Para chegar à capacidade de 40 mil presos, porém, cada cela deveria abrigar 156 pessoas —quase o dobro do número de camas disponíveis, o que daria a cada detento 0,58 m² de espaço, segundo a BBC News, que disse ter tido acesso a documentos sigilosos que detalham a área do Cecot. Procurado pela reportagem, o governo não comentou. De acordo com García, o complexo está com quase 20 mil presos atualmente. Um deles, Alex Alfredo Ábrego, que pertencia à gangue MS-13, segundo o diretor, espera o grupo ao fim do pavilhão para a última atividade antes de o tour acabar: uma sessão de perguntas. “O que você acha desse tipo de visita?”, questiona a Folha. “Me parece muito bom”, ele responde. “Porque assim a humanidade pode saber como vivemos aqui.” A uma outra pergunta sobre a diferença entre estar na prisão ou nas ruas, ele responde, sentado em uma cadeira cercada de policiais armados: “Vivo melhor. Tenho todo o básico para viver neste lugar.” É quase meio-dia, e o grupo caminha de volta à saída para retornar à van. “Tenho uma pergunta a você. Por que perguntou o que ele acha da visita?”, questiona a assessora de imprensa internacional do governo, Wendy Ramos. “Isto não é um circo nem um shopping center. Quem vem aqui são os jornalistas. Esta é uma situação que nós, salvadorenhos, estamos vivendo; quem está aqui é o pior do pior.” “Fizeram perguntas vagas”, concorda García. “Poderiam ter perguntado por qual crime ele está ali, qual é a sua pena. Mas escolheram outros tipos de perguntas. Desperdiçaram.”




