

O governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), decidiu alimentar de forma democrática e descontraída colocar, na construção das pré-candidaturas, dois projetos distintos de poder: o da senadora Dorinha Seabra (União Brasil) ou do presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres (Republicanos).
Por Wesley Silas
Durante a assinatura da ordem de serviço para a construção do Centro de Educação Inclusiva Sarah Gomes, em Palmas, Wanderlei foi questionado sobre quem seria seu candidato à sucessão no Palácio Araguaia. Em tom de aparente descontração, respondeu:
“Querem saber primeiro que eu?”, e emendou: “Os dois são meus candidatos”.
A frase, tratada no evento como brincadeira, escancara uma realidade incômoda na base governista: o governador, com aprovação de mais de 70% de seu governo, até aqui, enfrenta o conflito aberto na ambiguidade entre dois projetos que competem diretamente entre si.
Até o afastamento temporário de Wanderlei do cargo, em setembro do ano passado, Amélio Cayres era visto como o nome naturalmente ungido pelo Palácio, com acesso direto à estrutura política do governo e trânsito consolidado entre deputados e prefeitos. Dorinha, embora liderasse pesquisas eleitorais, era tratada como opção secundária dentro do grupo governista, mais tolerada do que abraçada.
A volta de Wanderlei ao governo, após seu retorno em dezembro, por decisão liminar da Justiça, reorganizou forças. Amélio, no comando da Assembleia, aproveitou o vácuo e ampliou sua musculatura política, ocupando espaço institucional e construindo narrativa de viabilidade para a sucessão. Ao mesmo tempo, o grupo aliado à senadora Dorinha operou nos bastidores, participando da articulação que resultou no retorno do governador ao cargo.
Desde então, interlocutores do governo relatam uma aproximação gradual entre Wanderlei e Dorinha, com agendas compartilhadas, afagos públicos e recados sutis de que a senadora poderia deixar de ser coadjuvante para se tornar protagonista na disputa. Nada, porém, foi oficializado.
Amélio, por sua vez, não recua um milímetro do papel de pré-candidato. Mantém agenda intensa no interior, discursos de quem já está em campanha e presença constante na mídia. Dorinha faz o mesmo, porém com um diferencial: exibe pesquisas que a colocam em posição mais competitiva, inclusive em cenários de confronto direto com a oposição.
Ao afirmar que “os dois são seus candidatos”, Wanderlei não apenas evita o desgaste imediato de escolher um lado, mas também prolonga uma espécie de guerra fria na base. A declaração pública funciona como recado duplo: de um lado, sinaliza que ninguém está descartado; de outro, reforça que a decisão final será tomada em um círculo restrito, no tempo e no formato que interessarem ao governador.
Nos bastidores, a disputa já não é apenas sobre quem tem mais estrutura, apoio parlamentar ou presença de mídia. O nó central é político: Dorinha representa, para uma parte do grupo, a chance de renovar a imagem do governo e ampliar alianças nacionais; Amélio simboliza continuidade orgânica do projeto atual, com maior controle interno do Palácio sobre a sucessão.
A base governista, enquanto isso, convive com a insegurança. Prefeitos, vereadores e lideranças regionais cobram definição, mas recebem como resposta apenas sinais contraditórios. Um dia, o gesto favorece Amélio; no outro, a foto e o discurso beneficiam Dorinha.

Ao adiar a escolha e tratar os dois nomes como equivalentes, Wanderlei mantém poder de arbitragem e preserva sua centralidade no tabuleiro, mas também aumenta o risco de racha interno mais adiante. Quando a definição vier – e terá de vir –, dificilmente os dois projetos sairão ilesos da disputa.
Até lá, a sucessão no Tocantins seguirá sendo decidida menos nos palanques e mais nas conversas reservadas, nos corredores do Palácio Araguaia e da Assembleia Legislativa, onde cada gesto do governador é lido como pista sobre quem, de fato, terá a bênção final.
Matéria elaborada com informações originalmente publicadas pelo jornalista Alex Câmera, do site Orla Notícia.
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