
Comerciantes e moradores da rua Mateus Grou, em Pinheiros (na zona oeste de São Paulo) começaram a receber cartas de desapropriação do Metrô para a construção de uma estação da futura linha 20-rosa. O trecho abriga lojas de moda e casas antigas que entraram na rota de remoções após notificações sobre a retirada dos imóveis. Por meio de nota, a estatal disse que moradores e empresários foram notificados formalmente sobre a desapropriação e também durante visitas prévias aos imóveis incluídos nos decretos de utilidade pública, e está à disposição para dúvidas e outras demandas. Os comerciantes dizem que as cartas começaram a chegar nas últimas semanas. Segundo eles, os documentos não estabelecem prazos claros para a desocupação e indicam apenas que o Metrô fará vistorias técnicas e avaliações para definir o valor das indenizações. “Todo mundo ficou surpreso. Ninguém foi consultado, ninguém participou de audiência, ninguém entendeu como seria esse processo. Um dos casos citados por ela é o de um lojista que alugou o imóvel em agosto e estava em reforma quando recebeu a notificação de desapropriação”, diz a representante da Associação de Moradores e Comerciantes da rua Mateus Grou, Majory Imai, 59. A empresa sustenta que a seleção dos locais da Linha 20-Rosa foi feita com base em estudos técnicos, que teria incluído três audiências públicas e reuniões com a comunidade e a subprefeitura para coleta de contribuições e ampliação da transparência do processo. Moradores e comerciantes da Mateus Grou, porém, questionam a necessidade de uma estação naquele ponto específico. A rua fica a cerca de 600 metros da estação Fradique Coutinho, da Linha 4-Amarela, distância considerada muito inferior ao padrão adotado em outros trechos da rede. “Normalmente, as estações têm uma distância de dois a três quilômetros. Aqui estamos falando de 600 metros, em uma região que nem é tão adensada. Uma baldeação faria mais sentido em áreas como a Faria Lima, onde há grande fluxo de pessoas”, diz Imai. A crítica também envolve o impacto urbanístico e cultural da intervenção. A rua concentra casas antigas e um comércio voltado à moda autoral, apontado por moradores como uma marca do bairro. “É um polo cultural, um comércio diferenciado e charmoso. Destruir isso para colocar uma estação que não atende uma demanda clara não faz sentido”, afirma o representante da associação. Dono de uma barbearia na esquina da Mateus Grou com a Cardeal Arcoverde há quase dez anos, Thiago Dota, 45, recebeu a carta na semana passada. Ele diz que, até o momento, não houve qualquer outro contato direto da empresa. “O que a gente está fazendo é mobilizar os comerciantes e proprietários para tentar barrar isso. As estações aqui já são muito próximas: Fradique Coutinho, Vila Madalena, Oscar Freire. Não vejo necessidade de mais uma”, afirma. Leonardo Daresso, 37, proprietário de uma loja de material de limpeza instalada há dez anos no local, relata insegurança sobre o futuro da família. A avó dele, Julieta Pereira, de 92 anos, mora na região há mais de sete décadas. “A gente tentou contato por email para entender qual tipo de desapropriação seria, mas não tivemos resposta. Só disseram que um técnico deve vir em cerca de cinco meses para vistoria e depois apresentar um valor. Se não aceitarmos, a ação vai para a Justiça”, relata. A principal reivindicação dos moradores é a revisão do local da estação e a abertura de diálogo com a comunidade afetada. “Morei aqui a vida inteira. Sei onde está cada coisa. Se eu tiver que sair, perco a minha identidade”, diz Julieta, a avó de Leonardo. Diante das notificações, a associação de moradores e comerciantes iniciou uma mobilização que inclui articulação com vereadores e deputados estaduais, além da organização de um abaixo-assinado contra o projeto. O grupo também pretende levar a reivindicação aos Conselhos de Participação Municipal e não descarta recorrer à Justiça. O Metrô afirma que as próximas fases do processo envolvem a avaliação dos imóveis e a orientação dos proprietários sobre todas as etapas da desapropriação, que só será iniciada após a conclusão do Projeto Básico e a definição do cronograma de contratação das obras. A empresa diz que a avaliação dos imóveis será feita com base em análise de mercado e que o pagamento das indenizações ocorrerá por depósito bancário. Em caso de discordância, o valor será estipulado pela Justiça. A futura Linha 20-Rosa terá 31,1 quilômetros de extensão e 24 estações, com previsão de transportar diariamente cerca de 1,4 milhão de passageiros. O traçado ligará as regiões da Lapa, Vila Madalena, Jardins, Itaim, Saúde e Cursino aos municípios de São Bernardo do Campo e Santo André. A estação prevista para o trecho deve se chamar Cardeal Arcoverde. Segundo a estatal, a escolha do ponto não se baseia apenas na distância em relação a outras estações, mas em estudos de demanda e origem e destino dos passageiros. O Metrô diz ainda que por se tratar de outra linha, a proximidade com estações já existentes não impede a implantação do novo ponto, que também foi planejado para permitir conexão futura com a Linha 22-Marrom, ainda em projeto.



