

Troca de comando tira Amastha do centro da cena partidária, aproxima ainda mais o PSB do grupo de Irajá e reforça a construção de uma frente ampla em torno da pré-candidatura de Laurez Moreira, que já conta com PSD, PDT e mira o apoio do PT.
Por Wesley Silas
A mudança na presidência regional do PSB no Tocantins é mais do que uma simples troca de nomes no comando partidário. A chegada do superintendente de Agricultura e Pecuária, Roberto César Ferreira de Oliveira, o Cesinha, à liderança da sigla no Estado, no lugar do vereador de Palmas Carlos Amastha, reorganiza peças relevantes no tabuleiro político e sinaliza a consolidação de uma frente ampla em torno do vice-governador Laurez Moreira (PSD).
Segundo relato do próprio Cesinha, a substituição foi construída em entendimento com o agora ex-presidente regional, Amastha, com o presidente nacional do PSB, João Campos (prefeito do Recife), e com a direção nacional representada pelo deputado federal Felipe Carreras (PSB-PE). O discurso oficial é de transição “harmoniosa” e foco na preparação do partido para as eleições deste ano. Mas o contexto político em torno da mudança mostra que há um objetivo mais amplo: alinhar a sigla de forma clara ao projeto de poder liderado pelo senador Irajá (PSD-TO), hoje principal articulador da pré-candidatura de Laurez ao Palácio Araguaia.
Do municipal ao comando estadual
Com trajetória construída em Lavandeira, no sudeste do Estado, Cesinha foi vereador por dois mandatos (2009–2016) e prefeito por outros dois (2017–2024), conseguindo ainda eleger seu sucessor, Denison Péricles (PSD). Agora, se coloca como pré-candidato a deputado estadual pela região sudeste, ao mesmo tempo em que assume o comando regional do PSB.
A primeira reunião da nova executiva, marcada para o dia 28, em Palmas, deve formalizar a transição de comando e alinhar a estratégia partidária. A presença de Cesinha em posição institucional relevante no governo estadual (superintendência de Agricultura e Pecuária) e sua proximidade com Irajá tendem a reforçar a leitura de que o PSB passa a integrar, de forma orgânica, o bloco articulado pelo senador.
Amastha em baixa, PSB em nova órbita
A saída de Carlos Amastha da presidência do PSB, cargo que ocupava desde 2019, reduz o espaço do ex-prefeito de Palmas no controle da máquina partidária e, por consequência, limita sua capacidade de impor uma linha própria dentro da sigla. Amastha, que já teve pretensões de protagonismo estadual, passa a ser, ao menos neste momento, um coadjuvante na estratégia construída em torno de Laurez.
Do ponto de vista político, o movimento indica que o PSB deixa de orbitar em torno de um projeto mais personalista vinculado a Amastha e se encaixa numa engrenagem mais ampla, sob influência direta de Irajá e do PSD. Em termos práticos, o partido tende a funcionar como parte da base de sustentação de um eventual governo Laurez, caso a candidatura se consolide e vença as eleições.
Frente ampla no campo popular ou reacomodação pragmática?
Com Cesinha, o PSB se soma a PSD e PDT na formação de uma frente que os articuladores classificam como um bloco do “campo popular” no Tocantins. Em entrevista ao site do jornalista Cleber Toledo, o senador Irajá afirmou que mantém diálogo intenso com o presidente regional do PT, Nile William Fernandes, e não descarta ique os petistas também passem a integrar o grupo.
Se confirmada a entrada do PT, Laurez terá ao seu redor um arco considerável de forças partidárias: PSD, PDT, PSB e, possivelmente, PT. Na prática, essa articulação cria uma espécie de “consenso de cúpula” em torno de sua pré-candidatura, com partidos que, nacionalmente, muitas vezes estão em lados opostos, mas no Tocantins se aproximam por afinidade de projetos regionais e interesses locais.
A retórica de “frente ampla popular” pode soar sedutora no discurso, porém exige um olhar crítico:
– Trata-se de uma construção programática, com agenda clara para o Estado?
– Ou estamos apenas diante de uma recomposição pragmática, focada em tempo de TV, fundo partidário e capilaridade eleitoral?
Sem respostas concretas a essas perguntas, a frente corre o risco de ser percebida como um arranjo típico da política tradicional tocantinense, em que partidos se reposicionam para se manter próximos do poder, independentemente de alinhamento ideológico consistente.
Laurez: fortalecido, mas cobrado
A pré-candidatura de Laurez Moreira sai fortalecida com a adesão do PSB e a sinalização de diálogo avançado com o PT. Ele passa a reunir, no papel, uma base que pode se apresentar como “centro de gravidade” da disputa eleitoral, com capacidade de isolar adversários e atrair quadros locais em busca de espaço numa possível futura gestão.
Por outro lado, quanto maior a coalizão, maior a pressão por participação em governo – secretarias, cargos estratégicos e influência em políticas públicas. É aqui que surge um ponto sensível:
– Laurez terá condições de conciliar interesses tão variados sem transformar uma possível administração em um condomínio de siglas?
– Qual o espaço para renovação política quando o núcleo do projeto se baseia na somatória de estruturas tradicionais já consolidadas?
O eleitor tocantinense, que já presenciou diversas composições e recomposições ao longo de sucessivas eleições suplementares e trocas de governo, tende a cobrar mais coerência e resultados concretos do que narrativas genéricas de “união pelo Tocantins”.
O que está em jogo para o PSB
Ao aceitar a presidência do PSB e alinhar o partido ao grupo de Irajá e Laurez, Cesinha assume responsabilidade dupla:
1. Organizar a sigla para disputar cadeiras na Assembleia Legislativa e consolidar representação regional (especialmente no sudeste do Estado).
2. Ser fiador político de um partido que, nacionalmente, integra o campo progressista, mas que, no Tocantins, pode se ver inserido em uma frente híbrida, onde pragmatismo e ideologia frequentemente entram em choque.
A forma como Cesinha vai conduzir a montagem de chapas, o diálogo com movimentos sociais e a relação com as direções nacional e municipal do PSB será determinante para saber se a sigla terá protagonismo real ou será apenas mais um componente de uma coalizão comandada por outros partidos.
Rearranjo estratégico em curso
A troca de comando no PSB, com a saída de Amastha e a entrada de Cesinha, é um movimento estratégico que se encaixa na engrenagem maior de fortalecimento da pré-candidatura de Laurez Moreira ao governo do Tocantins.
O discurso é de “frente popular ampla”, mas o cenário, por ora, revela uma recomposição de forças que responde, acima de tudo, a cálculos eleitorais e à necessidade de construção de uma plataforma competitiva para 2026.
Cabe ao eleitor e aos atores da sociedade civil observar se, por trás da nova correlação de forças, surgirá um projeto de Estado consistente, com propostas claras para desenvolvimento regional, inclusão social e gestão responsável – ou se a mudança no comando do PSB será apenas mais um capítulo na longa tradição de rearranjos pragmáticos que marcam a política tocantinense.
Fontes de referência para checagem:
Site Cleber Toledo – bastidores e análise da articulação envolvendo PSD, PDT, PSB e possível entrada do PT no apoio a Laurez.
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