
Saiu de uma cela com 12 m2 para outra com quase 65 m2, com cozinha, banheiro, quarto, varanda e quintal descoberto. Os médicos terão acesso a ele 24 horas por dia e poderá continuar recebendo visitas da família. O local é extremamente seguro e já hospeda o ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, um de seus cúmplices na tentativa de golpe.Convém lembrar que a carceragem da Polícia Federal nunca foi exatamente o inferno dantesco descrito por seus aliados nas redes. Tratava-se de um ambiente controlado, com pouca gente, segurança reforçada e rotina previsível, muito distante do que enfrentam diariamente milhares de presos Brasil afora. A transferência, portanto, não é um “rebaixamento” arbitrário, mas o retorno ao trilho institucional. O upgrade, aqui, é apenas retórico: sai-se de uma exceção para a regra. Mas com acomodações confortáveis, digna de um ex-presidente da República.Para efeito de comparação, reportagem de Lucas Almeida, do UOL, em novembro, por ocasião da prisão de Anderson Torres apontou que a cela, igual à de Jair, era maior que 85% dos apartamentos lançados em São Paulo entre janeiro e junho de 2025.O bolsonarismo sempre operou sob a lógica do privilégio travestido de injustiça. Quando está no poder, chama de prerrogativa. Quando perde, chama de perseguição. O mesmo discurso que naturalizou rachadinhas, ataques às instituições e flertes explícitos com o golpismo agora tenta convencer que a aplicação da lei é vingança. Não é.Há também um simbolismo difícil de ignorar. Durante quatro anos, Bolsonaro tratou o Estado como extensão do quintal de casa. Confundiu cargo público com patrimônio privado e Forças Armadas com torcida organizada. A transferência para a Papudinha sinaliza, ainda que tardiamente, que o país não funciona assim. Ao menos não deveria.Cumprimento de pena se faz em penitenciárias. Bolsonaro estava cumprindo pena de 27 anos e três meses em uma cela da PF por uma concessão. “Ah, mas e o Lula”, questionarão os afoitos. Nos 580 dias em que permaneceu na carceragem da PF em Curitiba, ele ainda estava esperando uma decisão final, seu caso ainda não estava transitado em julgado. Foi preso devido ao entendimento vigente na época de que bastaria uma condenação em segunda instância. Mas cumprimento de pena mesmo só após os recursos. E se o STF confirmasse, ele poderia ser transferido para um presídio.




