
Traição pode ter vindo de ala políticaA celeridade do ataque também alimentou suspeitas de colaboração interna. Um advogado venezuelano, que pediu anonimato por medo de represálias, avalia que houve o reconhecimento da incapacidade de Nicolás Maduro de comandar e enfrentar a força dos Estados Unidos. “Perto da base aérea de La Carlota, em Caracas, não houve resistência. Acredito que os militares já estavam rendidos quando o ataque aconteceu”, afirmou.Um militar da reserva, que também preferiu não se identificar, acredita que o paradeiro de Maduro e da esposa foi delatado por pessoas do seu entorno político.”Acredito que foi a ala política que o entregou. Há muita lealdade e silêncio entre os militares. O entorno político deu as coordenadas para os ‘gringos’ fazerem a extração. A política é a continuação da guerra por outros meios. A entrega de Maduro foi por poder, que apenas mudou de mãos. O chavismo continua no poder e ainda é forte”, disse o militar, que serviu por 16 anos às Forças Armadas Bolivarianas da Venezuela.O consultor político Luis Peche Arteaga reforça a suspeita de colaboração. “É difícil que esta operação tenha acontecido sem algum tipo de colaboração enquanto informação e inteligência para determinar qual era a rotina de Maduro, como se mobilizava, onde dormia, quando era o melhor momento para atacar. Teve que haver participação de funcionários civis e militares venezuelanos”.Delcy Rodríguez com apoio de TrumpA suspeita de traição interna ganhou força após Donald Trump afirmar que Marco Rubio, secretário de Estado americano, conversou com Delcy Rodríguez e que ela estaria disposta a fazer o necessário para tornar a “Venezuela grande novamente”.Continua após a publicidadeA agora presidente interina negou qualquer vínculo com o governo Trump. Ainda assim, na noite de domingo (4), Delcy afirmou considerar “prioritário avançar para um relacionamento internacional equilibrado e respeitoso entre os Estados Unidos e a Venezuela”.Baixas cubanasNo entorno da cúpula do governo, é comum a presença de militares uniformizados e à paisana com características diferentes das dos venezuelanos. Quando abordados, mantêm silêncio e respondem de forma monossilábica. O hermetismo serviria para ocultar a nacionalidade desses agentes. Segundo relatos, líderes do chavismo são protegidos por militares cubanos.Segundo o advogado ouvido pela reportagem, este seria o motivo da demora do chavismo em anunciar o número de mortos após os ataques americanos. Enquanto a imprensa e ONGs venezuelanas apuravam a informação, Cuba informou que 32 militares oriundos da ilha comandada por Miguel Díaz Canel morreram durante a ação norte-americana na Venezuela. “Qual a justificativa de que um presidente tenha guarda-costas de outra nacionalidade?”, questionou.Já o militar na reserva garante que “o silêncio sobre número de mortos é para não demonstrar fraqueza” por parte do regime venezuelano. 3.jan.2026 – Imagens mostram explosão no Forte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, durante ação dos EUA para capturar Nicolás Maduro Imagem: AFPContinua após a publicidadeMaduro é chavista, mas sem a popularidade de ChávezDurante os 12 anos em que Nicolás Maduro esteve à frente do Palácio de Miraflores, ele nunca contou com a popularidade de Hugo Chávez. A eleição de julho de 2024 evidenciou ainda mais essa fragilidade. Maduro foi empossado pelo Conselho Nacional Eleitoral sem a apresentação das atas de votação.Cópias dos resultados reunidos pela oposição indicavam vitória de Edmundo González, inclusive em zonas militares, o que demonstraria a perda de apoio de Maduro dentro dos quartéis.Após julho de 2024, o silêncio no país ficou ainda mais forte. Sem legitimidade, o governo recrudesceu a repressão às vozes contrárias. Segundo a ONG Justiça, Encontro e Perdão, atualmente há mais de 1.040 presos políticos venezuelanos entre civis e militares. Já a ONG Fórum Penal contabiliza 176 militares presos, entre homens e mulheres.”Se surge alguém contra o governo dentro das casernas, é preso. Caso faça algo contrário, é acusado de traição à pátria, e com essa acusação não há direito a nada. Todos os direitos são violados. Não existe Estado de Direito. Por isso o governo é chamado de regime”, afirmou o militar da reserva.O advogado defensor dos Direitos Humanos reforça que as piores repressões e torturas têm sido direcionadas a militares dissidentes. “O governo nunca confiou neles”, disse.Continua após a publicidadeMilitares desvalorizadosAo medo de ser classificado de traidor à pátria, junta-se outro desalento: os baixos salários. “Um militar médio ganha de salário cerca de 60 dólares por mês. Um general pode chegar a receber, no máximo, 400 dólares mensais. Eu, na reserva, recebo 40 dólares de aposentadoria, não dá para nada”, entrega o reservista.Segundo o Cendas (Centro de Documentação e Análise Social), a cesta básica na Venezuela para uma família de até quatro pessoas custa cerca de 550 dólares — o equivalente a R$ 2.988. Já o salário mínimo equivale a três dólares. A problemática nas casernas venezuelanas não para por aí. Faltam alimentos para os militares. Cada um precisa levar sua própria comida. “Hoje nos quartéis não há abastecimento de comida. O tratamento é muito diferente ao da guarda presidencial”.Por décadas, os militares foram vistos como uma elite na sociedade venezuelana. Hoje, a formação é considerada precária, e apenas jovens de baixa renda se alistam. “Para suprir as vagas, que são muitas, estão preparando uma lei para que o serviço militar seja obrigatório porque não há gente se alistando”, explica o reservista.Os Rodríguez x militaresA trajetória pessoal de Delcy Rodríguez pesa em sua relação com as Forças Armadas. Ela é filha de um guerrilheiro que participou do sequestro de um executivo americano em Caracas. Jorge Antonio Rodríguez foi torturado e morto por militares em 1976.Continua após a publicidadeDelcy estudou Direito, ingressou na política e construiu uma imagem de boa interlocução com líderes internacionais e empresários, mas não é considerada próxima dos militares.Nos atos recentes de governo, a presidente interina aparece ao lado do irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. O respaldo político, no entanto, vem sobretudo de Diosdado Cabello, ministro do Interior e Justiça, e de Vladimir Padrino López, ministro da Defesa.”Quando foi ministra, ela negou nosso aumento salarial. Delcy não tem popularidade no setor castrense. Por isso aparece ladeada por Diosdado e Padrino, para demonstrar força”, explicou o militar da reserva.Segundo ele, Diosdado concentra o controle da Guarda Nacional, da polícia e da DGCIM (Direção-Geral de Contrainteligência Militar). “Delcy tem que ter Diosdado perto sim ou sim. Diosdado manda até mais que o próprio ministro da Defesa”, explica o militar na reserva.Organizações como ONU, Anistia Internacional e Human Rights Watch acusam a DGCIM de tortura, prisões arbitrárias e outros abusos. Agentes de elite da polícia dos EUA escoltaram Nicolás Maduro até corte de Nova York Imagem: REUTERS/Eduardo MunozContinua após a publicidadeManobra para ficar no poderA Constituição venezuelana determina que, em caso de ausência total do presidente, eleições devem ser convocadas em até 30 dias. No entanto, se for declarada ausência provisória, a vice-presidente pode governar por até 90 dias, prorrogáveis por mais 90, com aval do presidente da Assembleia Nacional — cargo ocupado pelo irmão de Delcy. 5.jan.26 – Juramento de Delcy ao lado do irmão dela, reeleito presidente da Assembleia, e acompanhado por filho de Maduro Imagem: Marcelo Garcia / AFPMas Delcy não tem apoio popular, somente o do irmão e agora busca respaldo através das figuras de Diosdado Cabello e de Padrino López. Portanto, ao que tudo indica, não há previsão de mudança de poder na Venezuela. “Eles querem dar a ideia de que tudo continua normal. Se nos próximos dias houver a liberação de presos políticos, isso apontaria para uma mudança na gestão do país”, diz o advogado.No entanto, no dia da posse dos deputados da Assembleia Nacional, ao menos 14 jornalistas foram presos. O episódio reforça a percepção de que o governo de Delcy Rodríguez, com ou sem apoio militar, tende a ser ainda mais radical que o de Nicolás Maduro.




