
Nunca curamos as feridas deixadas por 21 anos de ditadura. Tapamos com um curativo mal feito, ao qual chamamos de anistia, que garantiu impunidade a crimes cometidos pelo Estado. Essas feridas continuam fedendo, apesar dos esforços estéticos.Dessa forma, temos lidado com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. E o impacto de não entendermos, refletirmos, discutirmos e resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia, com parte do Estado aterrorizando e reprimindo parte da população (normalmente a mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre a mais rica).A impunidade dos artífices, comandantes e torturadores do golpe de 1964 ajudou a semear a tentativa de 2022. Mas também a semear o Brasil de violência contra populações marginalizadas cometida por forças de segurança que se sentem invencíveis e cavalgam na impunidade garantida pelo sistema.A Gloriosa não foi agressiva apenas com intelectuais, artistas e jornalistas, mas também com trabalhadores rurais, com operários, com indígenas, quilombolas, ribeirinhos, entre outros, quando estes se negavam a cumprir o papel estabelecido pelos militares e seus sócios civis no seus planos de “desenvolvimento nacional”. O papel de trabalhar sem reivindicar e de ceder suas terras e seus rios sem reclamar.Daí, o passado não resolvido sempre volta. Entrincheirado em bons cargos na Esplanada dos Ministérios, camuflado para fugir da Reforma da Previdência, carregado de benefícios de compras públicas de Viagra e próteses penianas superfaturadas, marchando com a mentira de que representa um poder moderador, defendendo a pensão especial para filhas solteiras.Sim, não é que Bolsonaro perverteu ingênuos generais estrelados. Setores militares estavam com ele desde antes mesmo de seu governo em busca de privilégios, de dinheiro, de poder. O ex-presidente não criou o golpismo militar. Ele sempre esteve aí, inclusive Jair Messias foi nele forjado. Ele só deu à extrema direita organização e sentido através de sua eleição em 2018, inclusive nas Forças Armadas.




