
A projeção do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), apresentada às vésperas da COP30, de que não será mais possível limitar até 2030 o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, adicionou frustração em relação às NDCs –a contribuição determinada por cada país para atingir a meta do Acordo de Paris–, mas tornou indiscutível o caminho que precisa ser tomado em qualquer cenário de enfrentamento da crise climática. Do lado brasileiro, à frente da conferência, o esforço em Belém foi ditado logo na Cúpula dos Líderes, na semana passada. Em seu discurso de abertura, o presidente Lula colocou no centro da mesa a necessidade de mapas do caminho para reverter o desmatamento, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários à transição energética e à proteção das florestas, únicas formas de reduzir a temperatura do planeta.Como dito na coluna passada, o que tem de ser discutido agora é o quebra-cabeças para casar os dois mapas, o da saída do petróleo e do desmatamento zero –com o fio condutor da captura de carbono via soluções baseadas na natureza. Esses são os três pilares que devem fundamentar o resgate da Missão 1,5°C. Firmada pela trinca dos últimos anfitriões da conferência para pressionar por recursos para a ação climática, a Missão 1,5°C traçou como linha-mestra a transição dos combustíveis fósseis, como acordado na COP de Dubai. Temos, em Belém, a oportunidade diplomática e política de ampliar esse foco e incluir a proteção de florestas e oceanos sem diluir as metas em relação à energia fóssil. A estratégia integrada dos três pilares é uma rota realista, pragmática e eficaz para que a Missão 1,5°C expandida possa recolocar o mundo na trajetória de limitar o aquecimento global. A eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, o primeiro pilar, é indispensável, mas não suficiente. Daí a importância de se desenvolver o mapa do caminho para zerar globalmente o desmatamento, com metas mensuráveis, monitoramento transparente e financiamento previsível. Neste segundo pilar, o empenho brasileiro em fazer decolar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, em inglês) tem o mérito pioneiro de mudar a lógica de incentivos, premiando resultados de conservação e restauração verificados.O terceiro pilar são as soluções baseadas na natureza, com foco na restauração de florestas e oceanos. Já sabemos que impedir o desmatamento e repor o que foi perdido é a tecnologia mais barata e factível para a captura do carbono em grande escala. Mas temos de garantir nesta COP um pacote com metas de proteção e restauro e novos instrumentos financeiros também para o chamado carbono azul. Ecossistemas marinhos e costeiros capturam CO2 em taxas superiores às de muitos sistemas terrestres e o armazenam por séculos.Se houver regras claras, salvaguardas sociais e ambientais e padrões de alta integridade, é viável mobilizar recursos públicos e privados para os três pilares. Essa estratégia abre espaço para a cooperação entre o Sul Global, que detém boa parte dos recursos naturais com maior retorno de mitigação, e o Norte onde estão os países ricos que concentram o capital financeiro. Nesse sentido, o investimento pelo Norte em captura de carbono via soluções baseadas na natureza verificadas é uma solução ganha-ganha que fortalece a confiança. Com o tempo curto e os riscos altos, ampliar a agenda é calibrar o plano para o mundo real, amparado pelo que a ciência e a experiência nos dizem. Uma missão para garantir a nossa sobrevivência como espécie não pode ser impossível. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.




